Privilégio para "poucos"


Houve uma época não muito distante onde ler era um privilégio de algumas pessoas, o que definia o acesso à educação formal era o poder aquisitivo. Assim ler era um privilégio e dava um destaque social. Assim quando se pensou em dar direito a voto limitaram somente àqueles que sabiam ler e escrever. Excluíram com isso os pobres e os recém libertados escravos e seus descendentes e isso só foi corrigido em 1988.

Esta semana o STF vota o fim da prisão especial provisória para quem tem diploma de ensino superior. Durante minha juventude algumas coisas me incomodavam, na época eram normal, pobre não fazer faculdade e rico não ser preso junto com bandidos.  Como não haviam tantas faculdades pagas e as universidades públicas eram para "filhos de papai",  (era como se chamavam os filhos dos ricos) era raro alguém das classes inferiores acessarem o ensino superior. Desta forma nunca planejei entrar na universidade, fiz um curso técnico e fui para o campo trabalhar, este era o caminho mais bem sucedido para alguém de uma família pobre. Assim inconsciente respeitava a primeira afirmação. Mas a segunda me incomodava pela injustiça inerente nela, dando privilégios aos ricos mais uma vez. Uma lei do código penal garante a quem tem nivel superior que aguarde o julgamento em uma cela especial, na verdade esta lei dava aos ricos na época o direito de não sentir o ambiente de uma detenção provisória junto com outros criminosos, independente de seu crime. Desta forma um suspeito de assassinato com nível superior ficava em uma cela especial enquanto um pobre que foi pego furtando algo no mercado ficava numa cela comum. As injustiças entre ricos e pobres eram visíveis mas a sociedade achava normal isso. O que mudou? Hoje temos como questionar isso sem ser preso, mas a mente de muitos ainda acha isso normal e é aí que erramos.
Diante de nossa constituição somos todos iguais, mas na prática isso é apenas uma ficção, nós mesmos tratamos diferente quem tem dinheiro, seja no trabalho, nas ruas, nas igrejas ou no comércio. O dinheiro abre portas e a falta dele as fecha. Acabar com este privilégio é bom, mas ainda não resolve. Temos ter medidas para reduzir as diferenças sociais que espremem os mais pobres para baixo e empurram para cima e protegem os mais ricos. 

Por Paulo Kanasiro 

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