Ondas de ódio
Para quem nasceu depois dos anos 80, talvez tenha pouco ou nenhum conhecimento sobre a guerra que houve na Irlanda nas décadas de 60, 70 e 80 entre católicos e protestantes. Um país formado por católicos e protestantes teve esta diferença acalorada por decisões e interesses políticos. Talvez na época tal particularidade da sociedade não seria relevante se não fosse usada politicamente ou evidenciada de forma inadequada.
Na Irlanda desde a invasão dos normandos, no século 12, os britânicos se tornaram presentes na ilha. O povo local era oprimido e as leis eram impostas de fora (Inglaterra), o que causava revolta em seus habitantes, no entanto até aquele momento as controvérsias eram políticas e étnicas, mas em 1922, a Irlanda foi dividida: ao norte de maioria protestante passou a ser governado a partir de Belfast, (ligados a Inglaterra), enquanto a República da Irlanda, de maioria católica, tinha seu governo em Dublin. A partir daí a guerra e o preconceito passou a ser entre ser evidenciada por ser católico ou protestante. Embora existente nas duas nações criadas pela divisão política, católicos e protestantes criaram uma antipatia tão grande a ponto saírem para a guerra. Cenas de trincheiras nas ruas, ataques terroristas e mortes, muitas delas, em quase 30 anos de conflitos ocuparam os jornais do mundo inteiro apresentando ao mundo o que não deveria existir, a guerra entre cristãos.
O risco ainda existe, e pessoas ou por desconhecimento histórico ou por interesses tentam de alguma forma associar a religião a política novamente. Nomear um juiz evangélico para a suprema corte não teria nenhum problema a não ser que isso fosse destacado como um interesse político, e foi justamente o que foi feito. Escolher um candidato não é errado a não ser que se vincule a escolha a uma preferência religiosa, e foi justamente o que aconteceu no Brasil. Declarar seu voto não é problema, desde que seja claro que a escolha é pessoal e não determinado pela igreja, o que foi deliberadamente feito. Líderes religiosos não deveriam agir como cabos eleitorais embutindo em seus sermões falsas profecias, preferências, justificativas para se escolher um candidato ou rejeitar outro, como foi feito. Os púlpitos de igrejas jamais deveria ser usado como palanque político, como foi vergonhosamente feito por várias igrejas evangélicas.
Criamos uma onda de ódio que circula dentro dos corações humanos, e como todo ódio prejudica não somente aquele que o abriga, mas a todos que estão a sua volta. Assim vemos irmãos hostilizando irmãos, cristãos ofendendo moralmente outro cristão, criamos torcida uniformizada de um candidato, e dividimos a célula principal de uma sociedade, a família. Isso terá um preço, assim como houve consequências graves para a Irlanda a divisão religiosa provocada por ações políticas trará prejuízo ao cristianismo brasileiro e na forma como as pessoas o vêem a partir de agora no Brasil.
Tenho dito isso e repito, religião e política são duas retas paralelas, ou seja, jamais devem se cruzar, caso contrário haverá prejuízos para os dois lados.
Deus não precisa da política nem de políticos, mas a política tem dado acenos a religião precisando de sua ajuda. Acredito que esta não foi a última, mas a primeira vez que as igrejas se envolveram tão profundamente na política no Brasil, espero que o cristianismo de forma geral não acompanhe este movimento vergonhoso que aconteceu no país em 2022.
Por Paulo Kanasiro
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