O mal do século
Texto baseado em uma palestra de Rafael Ruiz, professor da Unifesp, que explicou como a carência dos elementos no cotidiano resulta na sociedade intolerante que temos vivenciado. Ele mostrou que a supressão dos conhecimentos proporcionados pelas artes e literatura contribui para esta “desumanização”, tornando a insensibilidade a doença do século.
Em suas palavras, “A literatura produz um conhecimento insubstituível: com ela aprendemos não comente ‘o que é’, mas também ‘como é’ ser humano”, disse. Ruiz lembrou que, neste processo, o homem aprende a “ver o próximo e a si mesmo”.
A literatura promove esta consciência das proporções da vida, ou seja, a medida de dedicação a ser dada às coisas, pessoas e atividades que fazem parte de nossa existência. “Hoje, temos uma relação doentia e desproporcional com o celular. Investimos nas redes sociais, nos preocupamos com as ‘curtidas’ que recebemos, nossos amores se reduzem ao Tinder”, exemplificou. “Perdemos o ‘olhar nos olhos’ e as conversas sem mediação tecnológica. Esta falta de contato real com outra pessoa acarreta a insensibilidade. Se quisermos ser verdadeiramente humanos, devemos dar valor aos sentimentos e às relações”
A condição epidêmica de nosso tempo não foi adquirida de uma hora para outra, mas construída nos últimos séculos, à medida que houve a valorização do conhecimento científico, tecnológico, exato e preciso, em detrimento das artes e, em especial, da literatura, que passou a ser considerada “um lazer para o qual as pessoas não possuem tempo”.
Não sabemos mais o que é paciência (que, aliás, é uma característica humana). Um minuto passa a ser uma eternidade. Ficamos 24 horas on-line e não vivemos mais o momento. Não existe mais a felicidade da espera, como descrita pela personagem da raposa no livro O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry.
De acordo com o professor, se olharmos a vida sob a perspectiva do tempo medido pelo relógio, nossos dias parecerão todos iguais. No entanto, se o alvo do nosso ponto de vista forem as relações estabelecidas, cada dia será diferente do outro.
Penso que para a sociedade como um todo este é caminho sem volta, mas podemos não participar desta epidemia, para isso, “dedique seu tempo à felicidade de apreciar a literatura e a sociedade ficará mais humana”.
Paulo Kanasiro
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