O aborto, a igreja e os reis da terra

 


Você é de esquerda? Então você é a favor do aborto? Esta foram as perguntas de um grande amigo às vésperas das últimas eleições. Não preciso falar que este meu amigo é um amigo da igreja, e que por trás desta pergunta há muita desinformação e muitos preconceitos. 

Há no congresso nacional um projeto de lei que descriminalizar o aborto e a bancada evangélica se posicionou contra a medida, mas o que isso significa? 

Olhando pelo lado do Estado, o Brasil é um Estado laico, isso é algo garantido pela constituição federal, então não se pode usar dogmas religiosos para defender uma lei ou derrubá-la. Cada deputado federal foi eleito por um grupo de eleitores, no entanto, ao assumir seu mandato ele representa o povo do país como um todo e não em favor de um grupo religioso, ignorando os demais. Todos devem seguir o que determina a constituição, no entanto, o projeto de lei federal não obriga ninguém a fazer o aborto, somente o descriminaliza, assim não interfere na decisão de quem é contrário a ele, mas muitos podem dizer que é um crime, mas suas justificativas são baseadas no pecado ensinado pela religião e como o país é laico, tais argumentos não são relevantes por mais bem intencionado que sejam. Assim, quem decide não fazer o aborto não se tornará criminoso e desta forma o Estado não estará violando a decisão ou religiosidade de ninguém.  

Pelo lado da igreja, o posicionamento da igreja quanto ao aborto está correto, no entanto, a forma como está sendo feito, não. A igreja cristã deve se manifestar contra o aborto, mas não deveria politizar o assunto impondo sua posição a toda nação através do congresso nacional, pois no Brasil existem pessoas de várias religiões e até mesmo aqueles que não tem nenhuma e impor isso a todos é uma violação da laicidade do Estado e dos direitos alheios. 

O que há por trás de toda esta celeuma? Os líderes religiosos de hoje não conseguem a fidelidade de seus membros, pois os abortos acontecem mesmo entre os membros da sua própria igreja, a criminalização do aborto, de certa forma, torna a ação proibitiva com a força do Estado. O uso do Estado para reforçar ideias e dogmas religiosos é geralmente comum em países Islamistas onde o Estado é Teocrático, mas é inconstitucional em um país laico como o Brasil. 

Respondendo à pergunta do amigo, sou conscientemente de esquerda, mas não sou favorável ao aborto, no entanto não sou favorável a criminalização dele, pois isso significaria impor meus dogmas religiosos a uma população diversa como o Brasil, a decisão deve ser individual segundo suas próprias convicções. A igreja deve se opor ao aborto, mas sem dar mãos ao Estado que pode pedir algo em troca e isso é muito ruim, pois a união Estado-Igreja foi a causa de muitos males e erros no passado, a igreja já vem se corrompendo com este aceno ao congresso nacional, misturando assuntos particulares da religião com as regras de Estado. 

No Apocalipse 17:2, falando de uma prostituta que parece se referir a igreja corrompida dos últimos dias, está escrito: "Os reis da terra se prostituíram com ela, e os que habitam na terra se embriagaram com o vinho da sua prostituição". Assim como uma mulher se prostituindo na esperança de receber algo em troca de seus serviços, a igreja se envolve com os reis da Terra fazendo com que a imagem de uma prostituta seja comparada com a igreja. Sem perceber, com a desculpa de estar defendendo a vida e a verdade, estão se vendendo aos reis da Terra, numa semelhança grotesca de uma prostituta. 

Por Paulo Kanasiro

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