O Oscar
O Brasil perseguia um Oscar desde minha juventude, e em 1999, veio uma grande possibilidade com o filme Central do Brasil, mas a concorrência com o filme a vida é bela de Roberto Benigni, nos impediu de receber o primeiro Oscar. Após 26 anos finalmente conseguimos a nossa estatueta, mas o Brasil não estava preparado para isso, pois boa parte do país mergulhado em uma teoria de conspiração doida que ultrapassaria as fronteiras e contaminou a organização do Oscar, fizeram acreditar que foi uma fraude, mas por que? O filme nos leva a um período sombrio de nosso país onde a ditadura militar silenciava aqueles que usassem a pensar diferente. Num momento onde aqueles que foram presos por atentarem contra o estado democrático de direito, que clamavam em frente dos quartéis pedido intervenção militar com Bolsonaro no poder e que invadiram Brasília em um movimento que obrigaria o governo eleito acionar as forças armadas para garantir a ordem, entregando o país aos militares novamente veio a grande conquista do Oscar, mas estes mesmos que tentaram derrubar a democracia mancharam a comemoração. Felizmente a tentativa de um retrocesso não deu certo, mas o filme relembra o que muitos não viram, e os que viram fingem que não aconteceu. Evangélicos que pregavam e ainda pregam o medo do comunismo, sem saber para onde estavam levando seu rebanho, foram os primeiros a se manifestarem contra o Oscar recebido, "um filme sem nada de mais", diziam eles, afinal ele mostra o que eles não querem ver. E é assim que segue o movimento bolsonarista evangélico, conduzindo pastores que guiam suas ovelhas para que vejam aquilo que querem que elas vejam e rejeitem, sem nenhuma lógica, aquilo que não querem.
Assim um Oscar que seria muito comemorado em outros tempos, hoje perdeu o brilho para muita gente, pois a política entrou nas igrejas, subiu aos púlpitos e transformou fiéis em massa de manobras. Por isso vemos movimentos de igrejas e pastores orando e pedindo anistia para os condenados pelo 8/1, como se aquilo não tivesse sido nada. Se voltasse ao tempo e narrasse que algo assim aconteceria, provavelmente seria chamado de doido, mas acho que doido é o tempo que vivemos, onde crentes clamam e oram por uma ditadura que mata, tortura e destrói a liberdade, pastores impedem que seus membros pensem e decidam, líderes que manobram decisões e usam tal poder para se dar bem. Enquanto o filme mostrava o mal que um governo autoritário poderia promover, no mundo real vemos um mundo polarizado que ainda gostam de coleiras e da escravidão.
Por Paulo Kanasiro

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